O Brasil tem ampliado sua capacidade de geração de energia limpa, principalmente com parques eólicos e solares.
No entanto, esse avanço também trouxe um problema importante: em vários momentos do dia, parte dessa energia precisa ser cortada para evitar sobrecarga no sistema elétrico.
Esse processo é conhecido como curtailment. Ele acontece quando há mais energia sendo gerada do que a rede consegue absorver com segurança. Para evitar riscos de instabilidade e até apagões, usinas são obrigadas a reduzir sua produção.
Energia Perdida Começa a Atrair Outro Setor
Aquilo que antes era visto apenas como desperdício agora começa a chamar a atenção de outro mercado: o da mineração de Bitcoin.
Como essa atividade consome grande quantidade de energia, empresas do setor passaram a enxergar o excedente das renováveis como uma oportunidade de negócio.
A proposta é simples. Em vez de deixar parte dessa energia limpa sem uso, ela poderia ser direcionada para alimentar máquinas de mineração de criptomoedas. Assim, um problema do setor elétrico pode se transformar em uma nova fonte de receita.
Radius Mining Quer Liderar Esse Movimento
Uma das empresas que está apostando nessa ideia é a Radius Mining. Criada por um empresário com experiência em criptoativos e no mercado financeiro, a companhia já levantou R$ 28 milhões com fundadores e investidores para iniciar suas operações.
Entre os nomes que entraram no projeto está Leonardo Midea, ex-sócio da Prime Energy. A empresa agora negocia acordos com geradores de energia renovável para instalar equipamentos de mineração de Bitcoin dentro das áreas das próprias usinas.
Como o Modelo Vai Funcionar
O plano da Radius é operar as máquinas de mineração diretamente conectadas à geração de energia, sem passar pela rede elétrica tradicional. Isso permitiria aproveitar justamente a eletricidade que seria cortada pelo sistema.
Na prática, os geradores poderiam vender pelo menos uma parte dessa energia que hoje acaba sendo desperdiçada. Já a Radius ficaria responsável por importar os equipamentos, cuidar da operação, da manutenção e ficar com os Bitcoins produzidos.
Esse formato pode beneficiar os dois lados. Os geradores ganham uma nova possibilidade de monetização, enquanto a empresa de mineração reduz seu principal custo operacional, que é justamente a energia.
Primeiros Projetos Já Estão em Andamento
A empresa está perto de fechar um primeiro acordo em formato de prova de conceito envolvendo 6 megawatts médios de energia. Esse volume seria suficiente para abastecer por um mês uma cidade de cerca de 24 mil pessoas.
Além disso, outras negociações em andamento podem levar a um potencial de 50 MW médios. A expectativa do setor é que os primeiros projetos mais concretos comecem a aparecer entre este ano e o próximo.
A Radius também já assinou um contrato de serviços de operação e manutenção com a AXIA Energia em um projeto de pesquisa e desenvolvimento ligado à mineração de Bitcoin a partir de um parque eólico na Bahia.
Outros Grupos Também Estão Observando
A movimentação não é isolada. Outros grupos ligados à geração renovável, como Renova Energia, Serena Energia e Casa dos Ventos, também estudam oportunidades envolvendo criptoativos.
Isso mostra que o tema começa a ganhar espaço entre empresas que buscam alternativas para reduzir perdas causadas pelo curtailment. A mineração de Bitcoin ainda é uma aposta nova nesse contexto, mas já desperta interesse crescente.
Um Problema Bilionário no Setor Renovável
O desafio é grande. Em 2025, o Brasil desperdiçou cerca de 20% da energia eólica e solar produzida por causa dos cortes de geração. Esse cenário representou perdas bilionárias em receita para empresas do setor.
Diante disso, encontrar novos usos para essa energia se tornou uma necessidade econômica. E a mineração de Bitcoin surge como uma alternativa que pode ajudar a aproveitar melhor a infraestrutura já instalada.
Conclusão
O Brasil vive um momento curioso: ao mesmo tempo em que produz cada vez mais energia limpa, ainda não consegue usar todo esse volume de forma eficiente. Com isso, parte importante da geração renovável acaba sendo desperdiçada.
Agora, empresas como a Radius Mining querem transformar essa sobra em oportunidade. Se os projetos avançarem, o excesso de energia limpa poderá deixar de ser um problema e passar a ser um ativo valioso na produção de Bitcoin.
