Janeiro de 2026 estava previsto como o mês em que o governo do estado do Pará colocaria em funcionamento um novo sistema de rastreabilidade individual de bovinos. A iniciativa havia sido anunciada originalmente em 2023 e tinha como objetivo permitir o acompanhamento do gado desde o nascimento em todo o território estadual.
Esse tipo de controle é considerado uma medida essencial para impedir que o gado seja criado em áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia brasileira. Em 1º de dezembro de 2025, a agência estadual de defesa sanitária animal informou publicamente que, a partir de janeiro de 2026, todo o transporte de gado no Pará exigiria rastreabilidade obrigatória.
Decisão Repentina Adia Implementação Até 2030
No entanto, apenas um dia depois desse anúncio, o governador do Pará, Helder Barbalho, decidiu adiar a implementação do sistema até 31 de dezembro de 2030. O governador afirmou que os mercados internacionais não teriam recompensado o estado pelos esforços realizados para desenvolver o programa de rastreabilidade.
Apesar dessa justificativa, não foi esclarecido como a manutenção da atual falta de transparência, somada ao enfraquecimento de anos de trabalho preparatório do próprio governo estadual, poderia contribuir para o desenvolvimento de uma pecuária sustentável no Pará.
Pecuária E Desmatamento Na Amazônia Paraense
A criação de gado é reconhecida como o principal fator de desmatamento no Pará e em outros estados da Amazônia brasileira. Em outubro de 2025, a organização Human Rights Watch publicou um relatório apontando que pecuaristas haviam ocupado ilegalmente terras, causando sérios impactos às comunidades locais.
As áreas afetadas incluíram o assentamento de pequenos agricultores Terra Nossa e o território indígena Cachoeira Seca, ambos localizados no Pará. Segundo o relatório, essas invasões comprometeram direitos fundamentais dos moradores, como acesso à terra, moradia e preservação cultural.
Ligações Entre Fazendas Ilegais E Grandes Frigoríficos
Com base na análise de guias de transporte animal emitidas pelo governo do Pará, a Human Rights Watch identificou cinco casos em que fazendas ilegais situadas em Terra Nossa e Cachoeira Seca forneceram gado para propriedades fora dessas áreas protegidas.
Posteriormente, esses animais foram vendidos para abatedouros pertencentes à empresa JBS, uma das maiores do setor. As fazendas investigadas nessas regiões operam em desacordo com a legislação federal brasileira.
Sistema Era Considerado Prioridade Pelo Governo
Em novembro de 2024, pesquisadores da Human Rights Watch se reuniram em Belém, capital do Pará, com autoridades responsáveis pelo desenvolvimento do Sistema Oficial de Rastreabilidade Individual de Bovinos do estado.
Durante o encontro, os representantes do governo afirmaram que o projeto era uma prioridade estratégica e que sua implementação ajudaria a aumentar a competitividade do Pará em mercados internacionais exigentes, como a União Europeia e o Japão.
Impactos Do Adiamento Para Cadeias Produtivas
O adiamento da medida impede que pecuaristas e frigoríficos do Pará tenham acesso a uma ferramenta eficaz para monitorar suas cadeias de fornecimento. Sem esse controle, torna-se mais difícil garantir que o gado não tenha origem em áreas com desmatamento ilegal ou em locais onde ocorreram violações de direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais.
