Saberes indígenas orientam o diálogo sobre educação e saúde no Alto Rio Negro, no Brasil

Para Carla Wisu, antropóloga e administradora do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, os verdadeiros guardiões do saber são os mais velhos, reconhecidos como especialistas dentro das comunidades. Segundo ela, são eles que preservam e transmitem teorias, conceitos e práticas que sustentam a vida, a espiritualidade e a própria continuidade dos povos indígenas. Nascida na comunidade Cucura Manaus, no Território Indígena do Alto Rio Negro, no noroeste do Amazonas, Carla pertence ao povo Desano e destaca que o repasse do conhecimento ancestral é a base da existência coletiva.

Diálogo internacional em defesa da saúde indígena

Carla Wisu participou do encontro “Diálogos Fundo Brasil–ONU no Alto Rio Negro: Encontro de Saúde e Proteção de Povos Indígenas”, realizado em São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas, em agosto de 2025. A iniciativa, promovida pela UNESCO e pela PAHO/WHO, reuniu lideranças indígenas, especialistas tradicionais e representantes institucionais. O objetivo foi criar um espaço de escuta, troca de experiências e reconhecimento da ciência indígena como elemento central nas políticas de saúde e proteção territorial no Alto Rio Negro.

Educação, políticas públicas e medicina tradicional

Durante as discussões, Carla dialogou com lideranças e participantes sobre perspectivas futuras para os povos indígenas, especialmente nas áreas de educação e saúde. Ela defendeu a criação de políticas públicas que reconheçam a medicina indígena e os saberes ancestrais como sistemas de conhecimento essenciais para o cuidado integral das comunidades. Para Carla, valorizar essa sabedoria é fundamental para fortalecer a relação equilibrada entre seres humanos e natureza, sobretudo diante dos desafios da conservação da biodiversidade amazônica e da preservação dos modos de vida tradicionais.

Conhecimento vivo e equilíbrio com a natureza

Estudante de mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas, Carla ressalta que os anciãos oferecem caminhos profundos para compreender o equilíbrio da vida, do cosmos e das relações que sustentam a floresta e seus povos. Esse conhecimento orienta práticas que vão desde o cuidado com o corpo e a saúde até formas de viver em harmonia com o território. Para ela, os saberes ancestrais não pertencem apenas ao passado, mas continuam guiando práticas atuais e indispensáveis para manter o equilíbrio no mundo contemporâneo.

Presença indígena nos espaços de decisão

Carla também enfatiza a importância do apoio de organizações não indígenas e da presença indígena em espaços de decisão e diálogo. Ela observa avanços nas lutas coletivas e destaca que ocupar esses espaços é essencial para reafirmar o respeito à natureza, vista como uma extensão do próprio corpo. Em sua visão, a saúde indígena vai muito além da ausência de doenças, envolvendo dimensões comunitárias, territoriais e espirituais que garantem o bem-estar pleno dos povos.

By Marshal

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