Tempestades em Minas Gerais resultam em ao menos 30 mortos; escola perde três alunos soterrados

As fortes chuvas no Sudeste do Brasil, iniciadas na noite de segunda-feira (23/2), provocaram uma tragédia de grandes proporções, especialmente na Zona da Mata de Minas Gerais.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, ao menos 30 pessoas morreram em Minas Gerais, além de vítimas fatais, desalojados e inúmeros prejuízos registrados no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Minas Gerais concentra o maior número de óbitos. O cenário mais crítico ocorre em Juiz de Fora, onde 24 mortes foram confirmadas nas últimas 24 horas e pelo menos 37 pessoas continuam desaparecidas.

Juiz De Fora: Cidade Mais Afetada Pela Tragédia

Em apenas sete horas, o volume de chuva em Juiz de Fora atingiu aproximadamente 80% da média prevista para todo o mês de fevereiro. Segundo dados meteorológicos, foram registrados cerca de 100 mm em menos de 12 horas, enquanto a média histórica mensal é de 170 mm.

Diante da situação, a prefeita Margarida Salomão (PT) decretou estado de calamidade pública, posteriormente reconhecido pelo governo federal. Em pronunciamento, ela afirmou que este foi o dia mais triste de sua gestão, marcando as primeiras mortes provocadas por fenômenos climáticos extremos na cidade.

A prefeitura contabilizou pelo menos 20 soterramentos de imóveis, principalmente na região sudeste do município. Atualmente, 440 pessoas estão desabrigadas, sendo acolhidas provisoriamente em três escolas.

Vítimas Confirmadas E Impacto Nas Comunidades

Entre as vítimas fatais estão três estudantes da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves: Maitê Cedlia Pereira Fernandes e os irmãos Arthur Rafael de Oliveira Machado e Miguel Carlos da Silva Machado. A mãe de dois dos alunos, Rosimeire do Carmo de Oliveira Souza, também perdeu a vida.

A diretora da escola, Delba Vieira Garcia, relatou que os bairros Bom Jardim e Linhares estão devastados e com previsão de mais chuva. A instituição abriu suas portas para receber cerca de 60 desalojados e está recebendo doações da comunidade.

Resgate E Apoio Emergencial

O Corpo de Bombeiros recebeu reforço de 150 militares vindos de outras cidades, além de equipes com cães farejadores para auxiliar nas buscas.

No bairro Parque Jardim Burnier, o deslizamento de uma encosta cobriu 12 imóveis. Quatro mortes foram confirmadas no local, enquanto 17 pessoas permanecem desaparecidas.

Ubá Enfrenta A Maior Enchente De Sua História

A cerca de 100 quilômetros de Juiz de Fora, o município de Ubá registrou seis mortes e dois desaparecidos. Em aproximadamente três horas e meia, o acumulado de chuva chegou a 170 mm. O rio Ubá alcançou 7,82 metros, transbordando e inundando diversos bairros.

O prefeito José Damato Neto (PSD) também declarou calamidade pública e classificou o episódio como a maior enchente já registrada na cidade.

O governador Romeu Zema (Novo) decretou luto oficial de três dias no estado e garantiu apoio às famílias afetadas. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em viagem oficial à Ásia, determinou o envio de equipes federais para auxiliar os municípios atingidos. O decreto de calamidade em Juiz de Fora foi reconhecido e publicado no Diário Oficial da União.

Dados Meteorológicos E Previsão Do Tempo

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o acumulado recente na Zona da Mata atingiu 209,4 mm, totalizando 589,6 mm apenas em fevereiro.

A previsão indica a continuidade de instabilidades, com possibilidade de novos acumulados entre 40 e 60 mm nos próximos dias.

Fatores Climáticos Que Explicam A Tempestade

De acordo com a meteorologista Maria Clara Sassaki, da Tempo OK Meteorologia, três fatores contribuíram para a formação da tempestade:

  • Passagem de uma frente fria pelo Sudeste;
  • Temperaturas elevadas;
  • Alta umidade atmosférica.

Além disso, o fenômeno conhecido como cavado — uma área alongada de baixa pressão em níveis médios da atmosfera — impulsionou a formação de uma supercélula, caracterizada por uma nuvem de grande porte com corrente ascendente rotativa.

Essa combinação fez com que a chuva ficasse concentrada entre o oceano e áreas de relevo, aumentando o risco em regiões de encosta.

Mesmo com previsão de menor volume nos próximos dias, o solo encharcado eleva o risco de novos deslizamentos e transbordamentos, afetando não apenas a Zona da Mata, mas também o Vale do Jequitinhonha, Vale do Rio Doce e a bacia do Muriaé.

Tremor De Terra Não Está Relacionado À Tragédia

Moradores relataram um tremor de terra no sábado (21/2). A Rede Sismográfica Brasileira, em parceria com o Centro de Sismologia da USP, registrou um abalo de magnitude 2,1.

No entanto, o sismólogo Bruno Collaço descartou qualquer relação entre o fenômeno e os deslizamentos. Segundo ele, tremores entre magnitude 2 e 3 ocorrem semanalmente no Brasil e não têm força suficiente para provocar danos estruturais ou deslizamentos.

A percepção do tremor ocorreu porque os sismos no Brasil costumam ser rasos, facilitando que sejam sentidos pela população próxima ao epicentro.

Situação No Rio De Janeiro

No Rio de Janeiro, uma idosa de 85 anos morreu afogada em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, após ficar presa em casa durante o temporal. Cerca de 600 pessoas estão desalojadas no município, que decretou situação de emergência.

A Rodovia Presidente Dutra ficou interditada por aproximadamente duas horas devido a alagamentos. Municípios como Duque de Caxias e Nova Iguaçu permanecem em alerta para cheias.

Na capital fluminense, o Centro de Operações registrou mais de 90 ocorrências envolvendo alagamentos, bolsões d’água e quedas de árvores.

Alerta Vermelho Em São Paulo

Em São Paulo, a Defesa Civil contabiliza 19 mortes desde o início da Operação Verão (1º de dezembro), número superior ao do ano anterior.

O maior risco está no litoral. O órgão renovou o alerta vermelho para acumulado de chuva até sexta-feira (27/2), com previsão média de até 175 mm, podendo superar esse volume em áreas isoladas.

Em Peruíbe, no litoral sul, choveu 282 mm entre sábado (21) e segunda (23), volume 46% acima da média histórica de fevereiro. O município registra 213 desalojados, abrigados em três escolas.

No litoral norte, deslizamentos interditaram rodovias como a Oswaldo Cruz, a serra antiga da Tamoios e a pista sul da Anchieta.

O Cemaden emitiu alerta de alto risco para movimentos de massa no litoral paulista.

As chuvas extremas no Sudeste brasileiro revelam a crescente vulnerabilidade das regiões urbanas a eventos climáticos intensos.

Com dezenas de mortos, centenas de desabrigados e infraestrutura comprometida, a tragédia reforça a necessidade de investimentos em prevenção, monitoramento e políticas públicas voltadas à adaptação climática.

Apesar da redução prevista no volume de chuva, o solo saturado mantém elevado o risco de novos desastres nos próximos dias.

By Marshal

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